Projeto selecionado pela FAPDF para atender demanda da Secretaria de Saúde do DF integra exoesqueletos inteligentes, neuropróteses, inteligência artificial e realidade virtual para ampliar o acesso à reabilitação na rede pública
O Distrito Federal dará um passo importante rumo à medicina do futuro com a criação do Centro de Tecnologias de Reabilitação Neuromotora. A iniciativa foi desenvolvida pela Universidade de Brasília (UnB) para atender uma demanda estratégica da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) e foi selecionada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), por meio do Programa Desafio DF. O objetivo é desenvolver, validar e incorporar novas tecnologias de reabilitação neuromotora à rede pública de saúde, ampliando o acesso de pacientes a tratamentos de alta complexidade.
A criação do centro é resultado de uma chamada pública do Programa Desafio DF, iniciativa da FAPDF voltada ao financiamento de projetos capazes de solucionar desafios estratégicos apresentados por órgãos do Governo do Distrito Federal. Neste caso, a Secretaria de Saúde do DF identificou a necessidade de ampliar o acesso a tecnologias avançadas para reabilitação neuromotora e lançou o desafio para que instituições de pesquisa apresentassem propostas. Entre os projetos concorrentes, a proposta desenvolvida pela Universidade de Brasília recebeu a melhor avaliação técnica e foi selecionada para implantação.
A Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec) é responsável pela gestão administrativa, financeira e operacional do projeto, oferecendo o suporte necessário à execução das atividades previstas. A Fundação também apoia as ações de comunicação, divulgação científica e publicidade da iniciativa.
À frente do projeto está o professor Roberto de Souza Baptista, coordenador do Laboratório de Automação e Robótica (LARA) da UnB. Segundo ele, a equipe desenvolve tecnologias voltadas à reabilitação neuromotora há cerca de 12 anos e a criação do centro representa um avanço natural da maturidade alcançada pelas pesquisas.
“Essas tecnologias vêm evoluindo de forma consistente e já estão sendo incorporadas, gradualmente, em centros de reabilitação de diversos países. Agora temos a oportunidade de aproximar essa inovação da realidade da rede pública do Distrito Federal e dos pacientes que dependem desses tratamentos”, afirma.
Da pesquisa ao atendimento dos pacientes
O novo centro nasce com a proposta de fechar um ciclo ainda raro no mundo: desenvolver tecnologias dentro da universidade, validá-las diretamente na prática clínica e utilizá-las no atendimento cotidiano dos pacientes da rede pública de saúde.
Entre as soluções que farão parte da estrutura estão neuropróteses, sistemas de eletroestimulação funcional, exoesqueletos inteligentes, inteligência artificial e recursos de realidade virtual, que poderão atuar de forma integrada durante o processo de reabilitação.
Os equipamentos serão voltados principalmente para pessoas com lesão medular e vítimas de acidente vascular cerebral (AVC). No futuro, a expectativa é ampliar a aplicação para pacientes com esclerose múltipla, paralisia cerebral, entre outras condições.
Um dos resultados já obtidos pelo grupo de pesquisa foi o uso contínuo da eletroestimulação funcional associada ao ciclismo em pessoas com lesão medular. A técnica promove a ativação da musculatura paralisada, favorecendo o fortalecimento muscular, a melhora da densidade óssea e impactos positivos na autoestima e na qualidade de vida dos participantes.
Outro destaque do projeto são os exoesqueletos inteligentes. Diferentemente dos modelos convencionais, que realizam todos os movimentos de forma automática, a nova geração é capaz de interpretar a intenção de movimento do paciente e oferecer apenas a assistência necessária para completar a ação.
“Com essa tecnologia, o equipamento identifica quanto o usuário consegue participar do movimento e auxilia apenas o suficiente. Isso favorece uma recuperação mais ativa e, dependendo do caso, pode contribuir para que a pessoa volte a realizar determinados movimentos de forma independente”, explica Baptista.
Integração de tecnologias promete acelerar a recuperação
A proposta do centro é combinar diferentes recursos terapêuticos em um único protocolo de tratamento. Enquanto o exoesqueleto auxilia mecanicamente o movimento, a eletroestimulação funcional ativa músculos comprometidos, a realidade virtual fornece biofeedback ao paciente e a inteligência artificial analisa os resultados para personalizar continuamente a intervenção.
Segundo o pesquisador, essa atuação conjunta pode potencializar a reorganização do sistema nervoso e do sistema musculoesquelético, ampliando as chances de recuperação quando comparada às técnicas convencionais. Além disso, os equipamentos também deverão reduzir o esforço físico exigido dos profissionais que atuam diariamente na reabilitação de pacientes.
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal será responsável pela etapa de validação clínica das tecnologias. Os dispositivos serão incorporados aos protocolos de atendimento de um dos centros de reabilitação da rede pública, permitindo que pesquisadores e equipes assistenciais acompanhem os resultados em tempo real.
“Poucos centros de pesquisa no mundo conseguem integrar, de forma institucional, pesquisa, inovação e atendimento clínico. Essa aproximação entre a Universidade de Brasília e a Secretaria de Saúde do Distrito Federal cria um ambiente que pode acelerar o desenvolvimento de novas soluções e gerar benefícios tanto para os pacientes quanto para a ciência brasileira”, destaca o professor.
Neste momento, a equipe trabalha na aquisição dos equipamentos, formação dos pesquisadores e elaboração dos protocolos científicos. Paralelamente, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal realiza o planejamento da estrutura física que receberá o centro e define o perfil dos profissionais que atuarão na iniciativa. A expectativa é que, nos próximos meses, sejam definidos o local de implantação e o início dos protocolos experimentais.
O projeto é financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), por meio do Programa Desafio DF, iniciativa voltada ao desenvolvimento de soluções inovadoras para desafios estratégicos apresentados por órgãos do Governo do Distrito Federal.
Além de Roberto de Souza Baptista, o projeto é coordenado pelos professores Henrique Taira Menegaz, João Luiz Quagliotti Durigan, da Universidade de Brasília, e Anselmo Frizera Neto, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).