Boa gestão de recursos libera cientistas para fazer ciência

O tema foi abordado no evento Strategic Workshop de Gestão de Projetos de Pesquisa, na USP

Ocorreu mais uma edição do Strategic Workshop, série de eventos que reúnem pesquisadores da USP em torno de diversos temas transdisciplinares com o objetivo de mapear expertises e promover novos arranjos de pesquisas entre os próprios pesquisadores da Universidade. Em sua 24ª edição, desta vez o workshop contou com o tema “Gestão de Projetos de Pesquisa”.

O evento contou com a participação de profissionais de tecnologia da informação, pesquisadores, professores, funcionários de áreas administrativas e dirigentes da USP e de outras Universidades. O diretor-presidente da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (FINATEC), Edson Paulo, qualificou o evento como “uma porta de extrema importância para a compreensão do trabalho do gestor em projetos de pesquisa”.

A discussão foi sobre a necessidade de uma estratégia para o aprimoramento da administração dos recursos de pesquisa e da gestão de pessoas, assim como a necessidade de uma otimização das despesas, tendo em vista o contexto de crise econômica que acaba por refletir no contingenciamento de verbas destinadas à produção científica.

Os participantes se dividiram em grupos e propuseram soluções para problemas reais. “Foi interessante ver cabeças pensantes debatendo assuntos que acontecem no dia a dia do pesquisador. Foram tratadas problemáticas reais em gerenciamento contábil e contratual”, contou Edson.

Responsabilidade equilibrada

Outro destaque importante apresentado no evento foi a responsabilidade de uma boa gestão dos recursos de pesquisa. A FINATEC já realiza a gestão administrativa e financeira de forma clara, eficiente e transparente para pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB). O papel da Fundação é garantir ao pesquisador, empresas ou agências financiadoras o suporte necessário para o êxito da pesquisa.

Desta forma, o cientista estará livre de preocupações e ocupações burocráticas, podendo concentrar toda sua energia no trunfo da ciência. “É importante lembrar sempre que tanto o gestor quanto o cientista exercem importantes funções para que a pesquisa tenha total êxito. Uma gestão mal feita pode destruir o futuro financeiro de um cientista, por exemplo. Por isso garantimos que esta é uma preocupação que ele não precisa ter”, concluiu o diretor-presidente.

Ameaça de corte no financiamento do CNPq para 100 mil bolsas preocupa cientistas

Uma nota da pró-reitoria de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) acentuou a sensação de incerteza da comunidade científica em relação ao futuro das pesquisas no Brasil. No documento, enviado anteontem ao corpo docente da instituição, a UFRJ informava que as bolsas financiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) seriam suspensas a partir de setembro. De acordo com a pró-reitora, Leila Rodrigues da Silva, a UFRJ recebeu, por telefone, um comunicado do órgão, afirmando que se não houver descontingenciamento de verba será impossível financiar o benefício.

No mesmo dia, o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, se reuniu com o presidente do CNPq, Mario Neto Borges, para discutir soluções para os problemas financeiros do órgão. Apesar do encontro e da negativa do Ministério sobre o cancelamento das bolsas, permanece o clima de insegurança e indignação.

Em entrevista ao GLOBO, o presidente do CNPq confirmou que não há garantia da manutenção, até o fim do ano, das 100 mil bolsas ofertadas pelo órgão a estudantes e pesquisadores. Ainda assim, Borges diz que está otimista a respeito da liberação dos recursos necessários para cumprir os compromissos. Segundo ele, o ministro Kassab, com quem se reuniu novamente ontem, afirmou que o CNPq tem prioridade na área e não deverá ter suas atividades interrompidas. De acordo com Borges, Kassab não pôde garantir o repasse dos recursos necessários até o fim do ano porque ainda precisa negociar com a área econômica do governo o descontingenciamento do orçamento da pasta.

Em março passado, o governo federal anunciou um corte de 44% nos valores previstos para 2017 do MCTIC, o que se traduziu em uma redução de R$ 572 milhões nos repasses de R$ 1,3 bilhão esperados pelo CNPq.

— O contexto nacional não é fácil, mas conseguimos assegurar pelo menos a próxima leva de compromissos de setembro, relativos a agosto. Mas a partir daí vai ser matar um leão por mês. O CNPq vive seu pior momento em 66 anos de história. Como não fizemos este corte no nosso orçamento mês a mês, chegamos ao limite dos nossos recursos agora — explicou.

RETROCESO DE ATÉ 20 ANOS

Na UFRJ, o CNPq é responsável pelo financiamento de 3.596 bolsas em 24 modalidades diferentes,o que inclui benefícios destinados à graduação, como bolsas de iniciação científica, até recursos para mestrado, doutorado, e financiamento de pesquisadores sêniors.

— É um sentimento de indignação plena. É impossível pensar que haja tamanha irresponsabilidade em relação à pesquisa nesse país. Caso isso se confirme, significará o fechamento de laboratórios e descontinuidade de estudos, o que resultaria em uma perda de 10 a 20 anos em termos de pesquisa — critica a pró-reitora da UFRJ. — Vivemos um período de corte orçamentário que já repercute negativamente. Alguns laboratórios estão na iminência de fechar. São pesquisas extremamente importantes para sociedade.

Na nota divulgada, a UFRJ afirma que “há um projeto político em curso, que se concretiza em um ataque e desmonte da Ciência e da universidade pública no Brasil, que acarretará prejuízos inestimáveis para toda a sociedade”. O professor Romildo Filho, pesquisador 1A do CNPq — que compõe a elite dos cientistas financiados pelo órgão —, conta que a escassez de recursos já vem dando sinais há tempos. Uma de suas pesquisas, aprovada em um edital de 2016, só começou a receber recursos neste ano e, ainda assim, com o repasse de pequeno montante. O pesquisador atua no desenvolvimento de materiais sustentáveis e aproveitamento de resíduos.

— Tivemos uma pesquisa na ordem de R$ 120 mil aprovada em 2016 e começamos a receber um ano depois, uma parcela de R$ 6 mil. Como produzir pesquisa sem dinheiro? Além do fomento ao pesquisador, que é o que mantém o grupo funcionando, o corte de todas as outras bolsas tira de muitos alunos a condição de pagar suas despesas diárias — afirma o cientista, que coordena o Laboratório de Estruturas e Materiais da Coppe/UFRJ e é vice-presidente da instituição.

Caso aconteça, o corte atingirá não só a área de engenharia e ciências, mas também as pesquisas na área de humanidades. Raphael Toledo, aluno do 4º período de Ciências Sociais da UFRJ e bolsista do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), conta que a hipótese de corte de bolsas foi uma surpresa desagradável. Há um ano ele desenvolve um projeto sobre cooperação internacional com povos indígenas.

— É meio frustrante. Estou no final da pesquisa, passei as férias todas me dedicando a ela e agora acontece isso. É um descaso— lamenta o jovem, que recebe uma bolsa de R$ 400.

Presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich diz que a situação da ciência no país é uma “morte anunciada”. Ele rebate ainda o argumento do governo de contingenciar os recursos alegando crise econômica:

— O MCTIC tem atualmente 25% do orçamento que tinha em 2010. Isso mostra que a situação é a crônica de uma morte anunciada. Era óbvio que a ciência brasileira não ia sobrevier até o fim do ano. Recentemente o governo liberou dinheiro para emendas parlamentares na ordem de bilhões. Vemos que o dinheiro existe, a questão é definir as prioridades.

Para o ano que vem, o presidente do CNPq diz que o órgão vai enfrentar “outra luta”, pois o texto prévio do orçamento a ser votado pelo Congresso Nacional traz mais restrições para a área de ciência e tecnologia. De acordo com ele, a prioridade será manter os valores originais previstos para 2016, que acrescidos da inflação chegariam a R$ 1,4 bilhão, além de obter o repasse de R$ 500 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que serve como um complemento ao seu orçamento e ao qual algumas das áreas de atuação do órgão estão vinculadas legalmente. Ele admitiu que este ano, porém, o CNPq só conseguiu receber R$ 62 milhões dos R$ 400 milhões previstos do fundo, também alvo de contingenciamento pelo governo federal. E o total não inclui R$ 20 milhões do FNDCT que estavam “marcados” para os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia em 2017.

Fonte: Jornal O Globo

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