Casos de sucesso

Surdez, bilinguismo e inclusão nas escolas públicas do Distrito Federal: entre o dito, o pretendido e o feito

ENTENDA O PROJETO

Como é o ensino bilíngue para surdos dentro de escolas inclusivas? Por que é alta a taxa de evasão de alunos com problemas de audição? Em contexto escolar inclusivo e multifacetado, estudantes surdos passam despercebidos entre outros alunos especiais. No intuito de dar visibilidade e analisar as práticas educativas voltadas a esse público, o Grupo de Estudos Críticos e Avançados em Linguagem (GECAL), desenvolveu um projeto para analisar a chamada prática de bilinguismo ou educação bilíngue para surdos, que tem sido implantada em escolas da rede pública do Distrito Federal que trabalham com a proposta de inclusão.

Financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF) e gerenciado pela Finatec, o projeto ‘Surdez, bilinguismo e inclusão nas escolas públicas do Distrito Federal: entre o dito, o pretendido e o feito’ visa problematizar as tensões na educação para surdos, bem como analisar a prática do bilinguismo em duas escolas inclusivas da rede pública do DF: Elefante Branco e Escola Bilíngue de Taguatinga. “Uma coisa é uma instituição se dizer bilíngue para surdos, outra é verificar se ela realmente o é”, comentou o coordenador do projeto, o professor doutor do Departamento de Linguística da UnB, Kleber Aparecido da Silva.

O foco da pesquisa se deu a partir da curiosidade em entender como trabalham professores que atuam em escolas bilíngues e inclusivas, cuja proposta é agrupar em uma mesma sala indivíduos com necessidades variadas. Para estudantes surdos, a oferta da educação bilíngue (português e Libras) surge como a opção ideal. Na prática, no entanto, ainda é preciso aprimorar as abordagens e métodos de ensino e a comunicação entre ouvintes e surdos.

“Ao mesmo tempo que pensamos na qualidade do ensino inclusivo para surdos, também prezamos pela formação do professor para atuar de forma abrangente. Assim, nosso foco é ajudar a ressignificar o ensino naquele dado contexto social”, explicou o professor Kleber Aparecido da Silva, que atua na formação inicial e contínua de professores de português como segunda língua no intuito de promover uma educação acessível e de melhor qualidade para todos.

Bilinguismo
Para se entender melhor a educação bilíngue para surdos, é preciso compreender o significado do termo ‘bilíngue’ neste contexto. “O emprego do termo é amplamente associado, literalmente, ao sujeito que usa duas línguas. Em ambiente escolar inclusivo, trata-se de muito mais do que alfabetizar e letrar atráves do uso da Libras e do português”, esclareceu o professor do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas da UnB.

Nas escolas inclusivas analisadas, entretanto, notou-se que grande parte dos professores regulares não possuíam conhecimento da Libras. Essa era intercalada com a fala ou superpostas a ela, de modo a serem recursos complementares. Os docentes ouvintes da sala de aula de apoio, por sua vez, fizeram um curso básico de Libras. “As atividades pedagógicas eram realizadas na forma de sinais isolados ou alternados com a fala. Tais professores não tinham uma vivência linguística e cultural propriamente dita”, comentou Kleber Aparecido da Silva.

Ter noção, portanto, do significado de bilinguismo para surdos auxilia na implantação de uma prática escolar apropriada e na formação adequada dos professores – um dos objetivos do projeto. Assim, escolas ditas bilíngues poderão, de fato, ter um trabalho pedagógico inclusivo para o público surdo e garantir o sucesso escolar desse público.

No intuito de transformar o ensino para surdos, o professor Kleber Aparecido da Silva e outros colegas da UnB já preparam o profissional do futuro: “Eu levo meus alunos de português como segunda língua para entrar nessas escolas e compreender, por meio de estágio supervisionado e atividades pedagógicas, a necessidade de ressignificar o processo de aprendizagem naquele contexto social, a partir de um olhar crítico-reflexivo”. Isso se dá, porque o projeto está inserido dentro da proposta de pesquisa-ação, ou seja, há o contato direto com os alunos e o corpo docente, visando uma transformação social.

“O diálogo entre universidade e escola é o grande diferencial do projeto. Nós aprendemos enormemente com os professores que atuam na educação bilíngue para surdos. Assim, podemos criar condições para que alunos e professores tenham um senso crítico e uma consciência linguística e cultural de respeito à diversidade e ao próximo”, completou.

Ensino bilíngue no Brasil
O projeto de educação bilíngue para surdos no Distrito Federal ganhou tal destaque, que a CAPES expandiu a pesquisa-ação para todo o Brasil, de modo a ser considerado um dos melhores projetos do país na área de direitos humanos e diversidades. “Hoje, temos projetos em todas as regiões do Brasil para avaliar como está a educação bilíngue para surdos. Nosso propósito é trabalhar a educação bilíngue em diferentes contextos”, comemorou o professor doutor do Departamento de Linguística da UnB.

Ademais, Kleber conta que os resultados deste projeto podem contribuir para o “Libras Gov – Sinalizando em Língua de Sinais Brasileira os espaços, contextos e expressões governamentais”, programa que deseja tornar acessível a informação para comunidade surda e também para outras iniciativas do Governo Federal. “Nossa maior satisfação é poder contribuir para a construção de uma política propositiva. Trata-se de uma mola propulsora para o respeito e à diversidade da comunidade surda”, finalizou o professor Kleber Aparecido da Silva.

Os resultados deste projeto podem contribuir com subsídios teóricos, práticos e/ou metodológicos para a (trans)formação de cidadãos críticos e reflexivos, que agem para a convivência em sociedade, com respeito ao aluno surdo, respeitando a diversidade e enfrentando todas as formas de preconceitos e de discriminação. Assim, a pesquisa alinha-se aos princípios norteadores do “Pacto Universitário pela Promoção do Respeito à Diversidade e da Cultura de Paz e Direitos Humanos” proposto pela CAPES.

Sobre a parceria com a Finatec, professor do Departamento de Linguística da UnB comemora: “A Finatec é nossa parceira e mãe acolhedora. Sempre que precisamos a Fundação sede o espaço para a realização de nossas pesquisas e eventos acadêmico-científicos”.

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