Projetos de pesquisa são importantes para mostrar como a utilização qualificada de recursos públicos pode contribuir para aperfeiçoar e melhorar os serviços oferecidos pelo Governo.
Três projetos de pesquisa do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de BrasÃlia, coordenados pelo professor Gustavo Romero, gerenciados pela Finatec e financiados pela FINEP, Unesco e Ministério da Saúde, buscam obter avanços importantes e significativos no tratamento da leishmaniose no Brasil, principalmente no Sistema Único de Saúde. A busca por novas alternativas terapêuticas para as leishmanioses é considerada uma linha estratégica e prioritária de pesquisa pela Organização Mundial de Saúde pela elevada toxicidade, risco de resistência e alto custo dos medicamentos disponÃveis. Além disso, a leishmaniose é considerada um grave problema de saúde pública, seja pela sua magnitude, seja pela sua elevada morbidade e letalidade. Segundo dados da OMS, noventa por cento dos casos de leishmaniose nas Américas estão no Brasil, que registrou 53.780 casos, entre 1987 a 2006, com uma média anual de 2.689 casos e aproximadamente 300 óbitos. O professor Gustavo Romero diz que uma das linhas mais importantes de pesquisa do Núcleo de Medicina Tropical da UnB é o estudo da leishmaniose, principalmente em relação ao seu tratamento, diagnóstico e comportamento epidemiológico, onde se enquadram esses três projetos de pesquisa. “O que pretendemos com esses estudos é responder a perguntas que são essenciais para os serviços de saúde do SUS e oferecer soluções cientÃficas que podem melhorar o tratamento da leishmaniose no Brasil”,explica Romero. Nesse sentido, um desses três projetos de pesquisa tem um objetivo audacioso: responder qual é o tratamento mais eficaz para a leishmaniose visceral no Brasil. Com financiamento de R$ 1,2 milhão da FINEP e duração estimada de dois anos, o “Estudo multicêntrico de eficácia e segurança dos fármacos recomendados para o tratamento da leishmaniose no Brasil” vai envolver mais de 30 pesquisadores de seis instituições universitárias – UnB, Fiocruz e Universidades Federais do PiauÃ, Tocantins, Sergipe e Mato Grosso do Sul – e terá como universo cerca de 600 pacientes.
“Hoje utilizamos três drogas no tratamento da leishmaniose no Brasil e temos evidências não muito robustas sobre a sua eficácia e toxicidade na forma visceral da doença. A idéia é desenvolver um ensaio clÃnico controlado que permita estimar a sua eficácia e definir claramente qual é o melhor tratamento em sintonia com os paradigmas atuais da pesquisa cientifica”, explica o professor Romero. Durante a pesquisa, a equipe de pesquisadores da UnB vai acompanhar e monitorar os resultados para tentar detectar o mais precocemente possÃvel qual a droga que é mais eficaz e menos tóxica. “Quando isso acontece, pode haver indicação de até mesmo interromper o tratamento com alguma dessas drogas”, diz Romero. O projeto possui grande potencial para a geração de novo conhecimento cientÃfico e de evidências para o tratamento seguro da leishmaniose visceral no Brasil. “Temos a ambição de que a conclusão dessa pesquisa seja válida para o tratamento da doença em todo o Brasil”, complementa o professor Romero.
Redução de Custo
Outro projeto de pesquisa do Núcleo de Medicina Tropical da UnB, que está em fase final de análise dos resultados, pretende responder a uma pergunta estratégica para o estudo da leishmaniose no Brasil: é possÃvel reduzir a dosagem dos medicamentos utilizados para reduzir também a toxicidade e os custos do tratamento? Com recursos de cerca de R$ 100 mil, financiados pelo Ministério da Saúde e administrados pela Finatec, esse projeto de pesquisa foi realizado com 280 pacientes em Presidente Tancredo Neves, na área rural da Bahia, aproveitando a estrutura da UnB naquele municÃpio, envolveu cinco pesquisadores e será tema de uma tese de doutorado do Programa de Medicina Tropical da UnB. “Nesse projeto nós comparamos a aplicação de uma dose maior do medicamento com uma dose menor para testar a eficácia dos dois esquemas. Se a dose menor se mostrar tão eficaz quanto a maior isso trará um grande benefÃcio no controle da doença no Brasil, reduzindo a toxicidade e os custos do tratamento”, explica o professor Gustavo Romero. A previsão é de que esses resultados estejam prontos para serem divulgados ainda em 2009.
Co-infecção
O terceiro projeto de pesquisa desenvolvido pelo Núcleo de Medicina Tropical da UnB, com recursos de R$ 103 mil, financiados pela Unesco, envolveu sete pesquisadores e 180 pacientes infectados com HIV, residentes do Distrito Federal e Entorno, atendidos no Hospital Universitário de BrasÃlia. Essa pesquisa estudou os aspectos clÃnicos, epidemiológicos e laboratoriais da co-infecção pelo parasito da leishmaniose em pessoas vivendo com HIV/AIDS para detectar qual a freqüência com que pacientes com HIV apresentam evidências de terem sido infectados, também, com o parasito da leishmaniose. “Quando uma pessoa se infecta com este parasito, ele pode ficar para o resto da vida no organismo dessa pessoa, podendo ou não se manifestar como uma doença. Quando essa mesma pessoa se infecta com o HIV, por conta da baixa imunidade do organismo a leishmaniose também pode aparecer. O que quisemos medir foi a freqüência em que isso acontece no grupo de pacientes com HIV/aids que freqüenta o Hospital Universitário o que reflete de maneira aproximada o que pode estar acontecendo na população de pacientes com a infecção pelo HIV no Distrito Federal”, explica o professor Gustavo Romero. A pesquisa, que foi objeto de uma tese de mestrado do Programa de Medicina Tropical da UnB terá seus resultados publicados na Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene, uma das mais importantes revistas cientÃficas na área de Medicina Tropical. A conclusão do estudo foi que 23% dos pacientes avaliados, infectados com o HIV, apresentaram evidências de possuir também em seu organismo o parasita da leishmaniose. “Essa co-infecção não é desprezÃvel, o que traz um nÃvel de alerta maior sobre o assunto. Os clÃnicos não estão conscientes dessa possibilidade e é preciso sensibilizá-los de que esse problema existe e precisa ser abordado o mais precocemente possÃvel”, adverte o professor Romero. Na avaliação do professor Gustavo Romero, coordenador desses projetos de pesquisa, eles são importantes para mostrar “o valor estratégico da utilização qualificada de recursos públicos” e como os seus resultados podem contribuir para aperfeiçoar cada vez mais os serviços do Sistema Único de Saúde no Brasil.


