Papéis que mudam vidas

 Participação em projeto de reciclagem de papéis e recuperação de livros devolve auto-estima e dá novo rumo à vida de ex-presidiários

Retomada da dignidade, proteção ao meio ambiente e capacitação profissional são os pilares que originaram e sustentam o projeto Reciclando Papéis e Vidas. Para o grupo de 25 egressos das penitenciárias do Distrito Federal que aprendeu a reciclar e encadernar papéis, restaurar e higienizar livros, o projeto representa muito mais do que a possibilidade de ter uma profissão: é uma maneira de recomeçar a vida com a perspectiva de um futuro diferente. O projeto nasceu em 2003 de uma iniciativa pioneira entre o Ministério da Justiça e a Universidade de Brasília de reinserir socialmente os egressos que já cumpriram pena, aproveitando o ensino e a profissionalização oferecidos pela Universidade. O projeto foi viabilizado e administrado pela Finatec e teve toda prestação de contas aprovada pelo Ministério da Justiça. A primeira etapa do projeto foi organizada em dois grupos com 12 e 13 ex-presidiários, que foram capacitados profissionalmente e acompanhados psicologicamente durante seis meses. Além das aulas de reciclagem, os egressos receberam apoio psicológico duas vezes por semana. As sessões eram voltadas principalmente para o resgate da auto-imagem, já que o estigma e o preconceito da sociedade em relação à condição de ex-presidiário é muito evidente. Adauta do Carmo, 62 anos, que saiu há cinco anos do Presídio Feminino do Distrito Federal, antiga Colméia, conta que conseguir um emprego tendo uma condenação no currículo é complicado. “Eu tenho muito orgulho de fazer parte desse projeto, ter uma profissão, de ter sido acolhida na UnB. É a primeira coisa que eu coloco no meu currículo”. Aluna da 1ª turma, Arlete da Silva, 33 anos, se entusiasma ao falar do projeto. “Eu entrei como aluna, hoje eu sou bolsista, ganho 500 reais por mês, trabalho trinta horas por semana, tenho uma profissão e ainda trabalho com o que gosto. Esse tipo de projeto deveria ser mais incentivado pelo governo”. A coordenadora do Reciclando Papéis e Vidas, Thérèse Hofmann, diz que é muito  gratificante transmitir o conhecimento adquirido na Universidade, mas também é frustrante perceber o quanto a sociedade é preconceituosa. “As oportunidades para essas pessoas são mínimas. Eles se profissionalizam, mas não conseguem emprego lá fora. Nós tentamos encaixá-los em vários ministérios e órgãos do governo e não conseguimos nenhuma colocação”.

Segundo estudo da Fundação de Amparo ao Trabalhador Preso – Funap – apenas 15% dos detentos que passam por algum projeto profissionalizante voltam a praticar crimes, enquanto a média nacional de reincidência é 85%. “Esse tipo de projeto que busca a reinserção social e a profissionalização dos egressos é tão importante para eles quanto para a sociedade e o governo, já que diminui a criminalidade e os gastos do governo com segurança”, explica a professora Thérèse. No ano de 2007, uma nova etapa do Projeto teve início. Dessa vez, a busca era pela inserção no mercado dos alunos qualificados. Em parceria com o UniCeub, foram abertas 12 vagas para restauração e higienização de 10.000 títulos de Direito da biblioteca do Uniceub. A coordenadora do projeto conta que por um momento desanimou. “Apenas sete alunos se interessaram em preencher as vagas e somente cinco chegaram a realizar o trabalho. Mas foi gratificante. No final esses cinco ex-detentos fizeram todo o trabalho dentro do prazo previsto no projeto. Eles estão de parabéns, foram muito dedicados”, orgulha-se Thérèse. Em 2008 foi organizada uma nova etapa para o Projeto Reciclando Papéis e Vidas. O grupo Votorantim, em parceria com a Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel - ABTCP e a orientação da UnB, começou a replicar o trabalho iniciado aqui no regime semi-aberto do presídio de Tremembé, no estado de São Paulo. A idéia era montar um portifólio dos papéis que podem ser produzidos através da reciclagem das fibras de cana do reino, papel moeda, sisal, bananeira, saco de cimento e bitucas de cigarros e colocá-los no mercado gerando recursos para a manutenção do projeto, a profissionalização de mais detentos e ex-detentos e também a geração de empregos para eles.

A professora e coordenadora do projeto, Thérèse Hofmann, está mais uma vez animada com o trabalho. “Se um grupo como o Votorantim se interessou pelo projeto é porque existe mercado para esse tipo de papel”. Se o mercado vai absorver o produto só o futuro nos dirá, mas o número de vidas que esses papéis vão mudar, é certo, serão muitas.

 

 

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